
AMBIENTE ALIMENTAR COMUNITÁRIO: UMA LEITURA A PARTIR DO TERRITÓRIO, DA DESIGUALDADE E DA SAÚDE
Por Murillo César Holtz Dorta
Nutricionista, Mestrando em Ciências da Saúde (FMB/UNESP). Pesquisador do Interssan
Data da elaboração: 26 de janeiro de 2025.
O ambiente alimentar (AA) comunitário, frequentemente denominado como AA físico, construído ou de varejo, é definido pelo número, tipo e localização dos estabelecimentos comerciais de alimentos, além de sua acessibilidade [1]. Está intrinsecamente relacionado às dimensões de disponibilidade (densidade de estabelecimentos comerciais em uma área) e acessibilidade (localização, proximidade e horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais) dos ambientes alimentares e compõe um dos determinantes do comportamento alimentar.
Compreendendo que o AA comunitário está relacionado à disponibilidade, ao acesso, à proximidade e à distribuição espacial de estabelecimentos de venda de alimentos, onde as escolhas alimentares são realizadas, as investigações acerca desse ambiente, principalmente quando se consideram as desigualdades presentes no espaço urbano e rural, são de alta relevância [1].
Nesse sentido, as diferenças socioeconômicas entre vizinhanças são perceptíveis, mensuráveis e capazes de sustentar hipóteses de associação com o desenvolvimento de desfechos em saúde. Dentro de um mesmo território, fatores como renda, raça/cor da população, indicadores de vulnerabilidade e insegurança alimentar evidenciam que o AA comunitário, na maioria das vezes, não é homogêneo, especialmente em países de baixa e média renda.
Ao focar a discussão no desenvolvimento da pesquisa sobre esses temas em diferentes países e níveis de renda, é válido notar que duas temáticas surgem e dialogam paralelamente com o AA comunitário: os desertos e os pântanos alimentares. Esses conceitos dizem respeito à disponibilidade de alimentos saudáveis e não saudáveis dentro de uma área.
O conceito de desertos alimentares surgiu inicialmente em países do norte global, com foco investigativo isolado no custo dos alimentos, número de estabelecimentos e acesso físico aos alimentos, e, atualmente, considera esses três aspectos de forma conjunta [2]. Ele se refere a vizinhanças vulneráveis com baixa disponibilidade de alimentos saudáveis, podendo ser compreendido como um reflexo das desigualdades sociais. Ressalta-se que o desenvolvimento científico na temática e o esforço em compreendê-la possuem forte relação com a capacidade de medi-la por meio de métodos específicos.
O conceito de pântanos alimentares possui trajetória semelhante, tendo sido concebido nos Estados Unidos da América (EUA) e relacionado à elevada disponibilidade de alimentos não saudáveis no território. Os estudos sobre o tema focavam inicialmente na quantidade desproporcional de alimentos não saudáveis, no tipo de estabelecimentos e no acesso a esses alimentos; atualmente, concentram-se na predominância desses produtos em uma determinada área [3]. Portanto, o conceito refere-se a vizinhanças com grande disponibilidade de alimentos não saudáveis.
A avaliação e aferição do AA comunitário podem ser realizadas por dois principais métodos: objetivos e/ou subjetivos [4]:
Essas percepções estão relacionadas aos níveis físico, social e de serviços locais nos quais os indivíduos estão inseridos e em constante interação. O nível físico descreve aspectos relacionados à moradia, ao acesso a espaços públicos e comércios, à percepção de segurança, entre outros. O nível social diz respeito à relação do indivíduo com os vizinhos, à autoestima e às facilidades e dificuldades de acesso aos espaços públicos e de comércio. Por fim, o nível de serviços locais consiste na percepção do indivíduo em relação aos serviços públicos disponíveis em sua localidade (escolas, coleta de lixo, saúde, entre outros) [4].
Madlala et al. (2023) [5] realizaram uma revisão de escopo com o objetivo de fornecer um panorama das evidências científicas sobre as escolhas alimentares de adultos em associação com o ambiente alimentar de varejo (retail) e o acesso a alimentos em comunidades e domicílios de baixa renda. Dentre os resultados, a revisão elenca facilitadores e barreiras para o acesso a alimentos saudáveis nessas comunidades. As principais barreiras identificadas foram:
Por outro lado, os facilitadores para uma alimentação saudável identificados na revisão foram:
Portanto, ao apreender os conceitos e experiências apresentados neste texto, emergem as seguintes reflexões:
Referências
[1] GLANZ, Karen et al. Healthy nutrition environments: concepts and measures. American journal of health promotion, v. 19, n. 5, p. 330-333, 2005.
[2] Center for Disease Control and Prevention (CDC). Census Tract Level State Maps of the Modified Retail Food Environment Index (mRFEI). 2011, 54. Disponível em: https://stacks.cdc.gov/view/cdc/61367. Acesso em 26 de janeiro de 2026.
[3] ZHANG, Ting; HUANG, Bo. Local retail food environment and consumption of fruit and vegetable among adults in Hong Kong. International journal of environmental research and public health, v. 15, n. 10, p. 2247, 2018.
[4] PESSOA, Milene Cristine et al. Ambiente Alimentar Comunitário. In: MENDES, Larissa Loures; PESSOA, Milene Cristine; COSTA, Bruna Vieira de Lima (Orgs.). Ambiente Alimentar: Saúde e Nutrição. 1. ed. Rio de Janeiro: Rubio, 2022. p. 73–85.
[5] MADLALA, Samukelisiwe S. et al. Adult food choices in association with the local retail food environment and food access in resource-poor communities: a scoping review. BMC Public Health, v. 23, n. 1, p. 1083, 2023.